Fernando Cerimedo, o consultor argentino acusado de ordenar atentado contra ex-companheira, é detido ao tentar deixar o país; investigações revelam “mini granja de bots” e histórico de desinformação eleitoral.
O consultor político e estrategista digital argentino Fernando Cerimedo, de 45 anos, foi preso na madrugada de 18 de agosto de 2026 no Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Ele tentava embarcar em um voo para Buenos Aires quando agentes da Força Especial de Combate ao Crime (Felcc) o detiveram.
A prisão ocorre no contexto da investigação sobre um atentado a tiros contra sua ex-companheira, a advogada e ativista Nadia Beller, que sobreviveu a três disparos em um hotel da cidade no dia anterior. Beller, que afirma estar grávida de Cerimedo, o acusou de ter contratado sicários disfarçados de entregadores para eliminá-la.
A Justiça boliviana decretou prisão preventiva por 180 dias. Em allanamentos a imóveis ligados a ele em La Paz (incluindo a zona de Aranjuez), a Fiscalía encontrou grandes quantias de dinheiro em espécie (mais de 40 mil dólares e equivalentes em outras moedas) e o que classificou como uma “mini granja de bots” — equipamentos destinados a administrar contas automatizadas em redes sociais.
Contas de trolls associadas foram desativadas na plataforma X. A defesa nega que se trate de uma granja de bots e alega que o material apreendido são dispositivos de comunicação. Também tramita investigação por possível enriquecimento ilícito.
Histórico de ligações políticas:
Cerimedo construiu uma carreira como um dos principais operadores digitais da direita e extrema-direita na América Latina. Ele é cofundador do portal La Derecha Diario (hoje parcialmente sob controle do espanhol Javier Negre) e CEO da agência Numen.
Brasil e família Bolsonaro: Mantinha relação próxima com Eduardo Bolsonaro desde pelo menos 2018. Trabalhou na campanha de Jair Bolsonaro e, após a derrota em 2022, protagonizou lives em que divulgou um dossiê apócrifo alegando fraude nas urnas eletrônicas (“O Brasil Foi Roubado”). O material foi desmentido pelo TSE.
A Polícia Federal o apontou como integrante do “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral” na investigação sobre a trama golpista, embora a PGR não o tenha denunciado por falta de provas de adesão consciente ao plano maior. Recentemente participou de lives com Eduardo Bolsonaro e era visto como possível aliado em estratégias digitais para Flávio Bolsonaro.
Argentina e Javier Milei: Foi estrategista digital na campanha presidencial de 2023. Admitiu controlar milhares de contas artificiais (“trolls” e bots) para “mentir ao algoritmo” e amplificar conteúdos. O governo Milei afirma que o vínculo se encerrou em 2023 e que não há relação atual.
Bolívia e Rodrigo Paz: Atuou na campanha digital de 2025 e, após a vitória de Paz, passou a ser descrito como “assessor pessoal” ou colaborador informal do presidente (confirmado por ministros e pelo próprio Cerimedo; o governo minimizou o papel formal). Sua influência em comunicação e decisões gerou polêmica.
Outros: Assessoria a Nasry Asfura (eleito presidente de Honduras em 2025), trabalhos no Chile (campanha do “Rechazo” ao texto constitucional) e contatos anteriores com Mauricio Macri e Patricia Bullrich. Também tinha parcerias com o ex-chefe de campanha digital de Trump, Brad Parscale, e estruturas nos EUA.
As milícias digitais:
Em entrevistas de 2023, Cerimedo reconheceu operar “fazendas de trolls”: redes de 1.000 a 2.000 contas artificiais por granja (chegando a cerca de 50 mil só na Argentina), criadas com IA e máquinas, envelhecidas por meses para parecerem reais.
O objetivo era gerar engajamento massivo (curtidas, comentários, compartilhamentos) para fazer os algoritmos das plataformas impulsionarem narrativas políticas, monitorar conversas e realizar campanhas negativas. Ele diferenciava essas práticas de “campanhas sujas” com notícias falsas, mas investigações o associaram à amplificação de desinformação, inclusive no Brasil.
A prisão de Cerimedo reacende debates sobre o papel de consultores digitais transnacionais na polarização política da região, o uso de bots e trolls e a fronteira entre marketing político e manipulação de opinião pública. Autoridades bolivianas e reportagens de veículos como La Nación, Infobae, e Intercept Brasil documentam o caso e os vínculos. A situação judicial segue em andamento.
Fonte: RNC
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